UMA PESSOA NÃO É UMA FUNÇÃO

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Ibby Grace é uma ativista e professora de Educação na National Louis University, em Chicago, onde também mora com sua esposa e seus filhos. Ela escreve para diversos blogs, já contribuiu textos para diversos livros e editou outros. Recentemente, ela editou, Ibbyjuntamente com Amy Sequenzia, o livro “Typed Words, Loud Voices”, uma compilação de textos escritos por autistas não falantes.

O texto original foi publicado em seu blog Tiny Grace Notes, onde Ibby costuma responder perguntas de pessoas não autistas, sobre a experiência autista.


Uma pessoa não é uma função

Elizabeth (Ibby) Grace

Faz anos desde a última vez que vi meu amigo Eric, mas se não mantemos contato no momento, é porque nossa amizade, nossa comunhão, é dessas de passar tempo junto um do outro.  Ele não é muito de falar. Talvez dez palavras? e também não escreve.  (E mesmo que ele fosse de falar, eu sou péssima ao telefone).  Na próxima vez que eu for à cidade dele e nos vermos, vai continuar sendo fácil passar o tempo com ele como se tivéssemos nos visto outro dia, porque nós dois gostamos de nos sentar ao penhasco escondido por relva oceânica, e ficar olhando o mar.  Gostamos de fazer isso em silêncio.

O Eric está sempre alerta e entende o que as pessoas dizem e fazem.  Eu e outras pessoas achamos que isto é óbvio, mas nem todos pensam assim.  Para início de conversa, ele sabe seu nome se ele gosta de você e, se não gosta de você, ele age como se nunca o tivesse visto na vida.  Se você é uma pessoa barulhenta que fala bem na frente do rosto dele e diz coisas como “me olhe nos olhos”, ele nunca vai mostrar se sabe seu nome.  Se você o tocar sem permissão (coisa que um número enorme de pessoas faz), ele não vai nem ao menos olhar para a sua boca pelo canto dos olhos.  Seu nome vira nada para ele. Mas se alguém de quem ele gosta perguntar se você (o que toca sem permissão) é um chato, ele vai apenas dar um quase sorriso cínico, mas quase imperceptível, ao invés de demonstrar raiva. É muito, muito engraçado e incrível como ele consegue conter-se tão rapidamente.

Se gostar de você, ele saberá seu nome e o dirá, mesmo depois de anos, como se você fosse alguma coisa incrível, porque seu nome é uma das poucas coisas que ele tem vontade de falar.  Ele te reconhece por uma olhadela rápida para a sua boca, pelo canto dos olhos.  Ele também diz sim ou não se ele estiver com vontade, mas ele prefere dizer que sim, que ele quer ir para a praia, por meio de uma ação. Ou prefere te convidar a segui-lo só andando na frente e indicando o caminho com a cabeça e então parando após alguns passos pra ter certeza de que você entendeu a sugestão.  Eu sei disto porque depois de dois anos sem nos vermos, nós nos encontramos na mercearia e ele chamou o meu nome antes que eu o visse. Quando ele fez a sugestão silenciosa, mas clara, nós dois então deixamos de lado os outros planos que tínhamos e fomos para o nosso canto nas falésias.

Quando estamos juntos não tem falatório.  É tranquilo.  Eu sei que posso procurá-lo quando quero ficar centrada e verdadeira comigo mesma.  O Eric sabe que eu não vou tentar fazê-lo parar o que quer que ele esteja fazendo por pensar que meus compromissos são mais importantes, ou algo assim, forçando-o a parar de repente, dar um passo para trás e começar tudo de novo.  Esse é o tipo de coisa que as pessoas de quem os nomes ele decide não lembrar fazem.  Eles fazem isso o tempo todo.  Muitas pessoas agem como se achassem que ele não entende nada; o que para mim, é estranho.  Mas agora que estou na internet, eu vejo que uma grande quantidade de pessoas parece crer que, se você não fala, você não escuta.  Não é a verdade, mas é amplamente difundido.

Eu não sei o quanto o Eric falaria ou poderia falar se ele achasse que falar fosse um passa-tempo útil, pois aconteceria que eu ficaria tagarelando, perguntando um monte de coisas que ele obviamente acharia irritantes e barulhentas.  Talvez ele não tenha a oportunidade de defender os seus direitos de uma forma ampla o tempo todo, mas eu sei que ele já fez isso algumas vezes ou pelo menos deixou claro para os outros aquilo que é importante para ele.  Por exemplo, onde ele mora, o mercado de trabalho não anda muito bom para pessoas deficientes ou mesmo para pessoas sem deficiências, porque ele mora na Califórnia.  Todos nós já ouvimos sobre os problemas financeiros na Califórnia.  A última notícia que tive é de que ele passa os dias num lugar chamado “day center“, o que é meio bobo.  Mas ele faz o que quer que eles estejam fazendo lá, vai para casa, vai para a praia.  Na residência comunitária onde ele mora há algumas pessoas meio barulhentas, o que não é a preferência dele, mas ele mora bem perto do mar, em um local onde os valores dos imóveis sobem descontroladamente e por isso é surpreendente que haja uma residência comunitária por lá.

Se eu ainda morasse onde o Eric mora, eu facilmente ajudaria a descobrir em quais tipos de trabalho ele se sairia bem, não por muitas horas, porque trabalhar demais provavelmente o estressaria.  Além dessa coisa de ter pessoas em volta dele fazendo barulho, que o estressaria ainda mais.  E se ele quizesse, o Eric poderia facilmente me roubar, ou me enganar, ou me confundir emocionalmente, porque eu confio muito nele, mas eu sei que ele não esse tipo de pessoa e eu sei com toda certeza que a minha confiança não é equivocada.  A razão de eu saber tudo isso e mais outras coisas, é que somos amigos e ele pode se comunicar apenas sendo ele mesmo ao invés de pela fala ou pela escrita.  E eu posso escutar só por estar ao lado dele notando quem ele é, ao invés de ficar falando pra ele usar as palavras ou me olhar nos olhos, ou ao invés de ficar mostrando as gravuras do PECs ou qualquer outra coisa. Assim como eu, qualquer outra pessoa pode fazer isso, mas elas ainda não sabem como isso é importante, talvez porque elas não consigam identificar-se com ele, ou algo assim.  Eu não sei.  Mas essa conversa de “alto” e “baixo” funcionamento que fica acontecendo o tempo todo, para todo lado, que tem a finalidade de nos separar, de alguma forma machuca meus olhos, ouvidos e sentimentos e por isso eu tenho que escrever sobre isso.

Deixe-me dizer uma coisa: meu mundo seria muito mais tranquilo se eu pudesse.  Mas ele não é e eu não posso, porque eu vou continuar falando e falando, como quem dá murro em ponta de faca, enquanto não for possível para o Eric dizer a todos que ele é uma pessoa e que sua vida tem valor.   Esse é o destino de sua amiga, e ele tem outros amigos, mas eu sou a que está falando agora porque eu posso fazê-lo, o que NÃO me torna melhor do que ele ou mais gente do que ele.  Isso apenas me dá uma esperança um pouco maior de que eu seja ouvida: a vida do Eric tem valor.  E não apenas para o Eric, mas para muitas outras pessoas, como seus amigos e pessoas de sua vizinhança que gostam de vê-lo passar.

Uma pessoa não é uma função.  Uma pessoa é uma pessoa.

Obrigada por ouvir.

Saudações,
Ib

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