MÃOS QUIETAS

Texto de Julia Bascom;

publicado originalmente no dia 05/10/2011 aqui

 

Para explicar minha reação a isto:

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eu preciso primeiro explicar minha história com isto:

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1.

Quando eu era só uma menina, prendiam meus braços e colocavam minhas mãos em cola pegajosa enquanto eu chorava.

2.

Hoje, eu sou maior do que eles. Quando ando por um corredor a caminho de uma reunião, minha mão salta para a parede, sentindo a textura enquanto passo.

“Mãos quietas”, eu sussurro.

Minha mão pousa na lateral de meu corpo.

3.

Quando eu tinha seis anos, pessoas muito maiores do que eu em suas vozes volumosas, ressonantes, forçavam minhas mãos a tocar texturas que fazem doer mais do que meu punho quebrado, enquanto eu chorava e implorava e suplicava e gritava.

4.

Numa sala de aula de crianças com dificuldades com a fala, a frase mais comum é uma metáfora.

“Mãos quietas!”

Um estudante brinca com um pedaço de papel, abana as mãos, contorce os dedos contra a palma da mão, cutuca um lápis, esfrega as mãos pelo ar. tudo é silêncio até que:

“Mãos quietas!”

Nunca encontrei um estudante que não tivesse a reação instintiva de parar tudo e por as mãos sobre as pernas ao ouvir esse comando. Graças à análise comportamental aplicada, cada estudante aprendeu esta frase na pré-escola com um tapa nas mãos que, depois presas à mesa ou ao lado do corpo, esperavam que se contasse até três; e assim ia, até que as crianças aprendessem a se autoconter ao ouvir as palavras.

O significado literal das palavras é irrelevante quando se sofre abuso.

5.

Quando eu era só uma menina, eu era autista. E quando se é autista, não há abuso. Há terapia.

6.

As mãos são, por definição, silenciosas. Elas não podem falar, assim como metade daqueles estudantes.

(Comportamento é comunicação).

(Não poder falar não é o mesmo que não ter nada a dizer).

As coisas, lentamente, começam a fazer muito mais sentido.

7.

O Roger precisa de uma cadeira modificada que o ajude a sentar. Ela chegou à sala de aula totalmente equipada com cintas para prender-lhe as mãos.

Jogamos fora as cintas. O distrito escolar ao qual ele pertencia antes costumava usá-las.

Ele tinha sete anos.

8.

Uma menina chamada Terra consegue entender meu abanar de mãos melhor do que minhas expressões faciais. “Você tem uma forma de abanar para cada coisa”, ela diz, e eu gostaria que todos pudessem olhar para minhas mãos e ver que eu preciso desacelerar ou que esta é a melhor coisa que já aconteceu ou posso tocar, por favor? ou estou com tanta fome que eu acho que meu cérebro está tentando comer a si mesmo.

Mas se eles vêm minhas mãos, eu não estou segura.

“Eles vigiam suas mãos”, minha irmã diz, “e você vai acabar deslizando-as para junto de seu corpo quando tudo o que você estava dizendo era eu gosto da textura deste cardápio.

9.

Quando estávamos na escola secundária, meu abano acidental causava ataques de pânico no meu amigo autista.

10.

Disseram-me que tenho uma fixação com as mãos. Minhas mãos são um dos únicos lugares de meu corpo que normalmente reconheço como meus, que posso sentir e ocasionalmente controlar. Eu sou fascinada por elas. Eu poderia estudá-las por horas. Elas são belas de uma maneira que me faz entender o que a beleza é.

Minhas mãos sabem coisas que o restante de mim não sabe. Elas digitam palavras, sentenças, histórias, mundos que eu não sabia que estavam no meu pensamento. Elas recordam senhas e sequências que eu nem lembrava precisar. Elas me dizem o que penso, o que sei, o que lembro. Elas nem sempre precisam de um teclado para isso.

Minhas mãos são geradores de ciclos de retroalimentação, tocando e sentindo simultaneamente. Eu acho que compreendo o mundo inteiro quando esfrego as pontas dos meu dedos.

Quando chego a um lugar desconhecido, meus dedos tocam as paredes e mesas e cadeiras e balcão. Eles deslizam sobre o papel e me fazem rir; pressionam-se uns contra os outros e me confirmam que sou real; batucam e produzem sons para me lembrar de causa e efeito. Meus dedos mapeiam um mundo e o fazem real.

Minhas mãos são mais eu do que eu mesma.

11.

Mas eu devo ter mãos quietas.

12.

Eu sei. Eu sei.

Alguem que não fala não precisa ser ouvido.

Eu sei.

Comportamento não é comunicação. É algo a ser controlado.

Eu sei.

Abanar as mãos não lhe ajuda em nada, então também não me ajuda em nada.

Eu sei.

Eu posso controlá-las

Eu sei.

Se eu ao menos tentasse suprimir-las, você não teria de fazer isso comigo.

Eu sei.

Eles de fato ensinam, na análise comportamental aplicada, durante o treinamento de um professor de educação especial, que a coisa mais importante, mais básica, mais fundamental é controle comportamental. A educação de uma criança não pode ser iniciada até que ela esteja pronta para a carteira escolar.

Eu sei.

Eu preciso silenciar a minha forma mais confiável de reunir, processar e expressar informação; para me controlar, sufocar, reduzir e remover a cada segundo, eu preciso me esforçar mais do que você poderia imaginar; eu preciso ter mãos silenciosas porque até que eu me mova 97 por cento do caminho em sua direção, você não consegue ver que há 3 por cento do caminho para você se mover em minha direção.

Eu sei.

Mas eu devo ter mãos quietas.

Eu sei. Eu sei.

13.

Há um garoto no supermercado equilibrando-se nos calcanhares e abanando as mãos com empolgação em frente a um mostruário. Sua mãe sussurra “mãos quietas!” e olha a sua volta, envergonhada.

Eu observo os olhos dele e já que não posso fazer por mim mesma, minhas mãos agitam-se discretamente quando ele olha.

(Abanar as mãos é a nova saudação terrorista).

14.

Deixe-me fazer extremamente clara: se você pegar minhas mãos, se você pegar nas mãos de uma pessoa com deficiências do desenvolvimento, se você ensinar “mãos quietas”, se você trabalhar pela eliminação dos “sintomas autistas” e “comportamentos de autoestimulação”, se você roubar a nossa voz, se você…

se você…

se você…se você…

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15.

Eu vou…

Eu…

.

 


 

Julia Bascom é uma escritora e ativista autista. Ela é fundadora do projeto Loud Hands que deu origem ao livro de mesmo nome. Julia é também vice-diretora executiva da ASAN (Autistic Self-Advocacy Network), uma organização inteiramente formada por autistas que atua na promoção de políticas públicas relativas aos direitos das pessoas com deficiências, desenvolvimento de atividades culturais para autistas e promoção de treinamento para o empoderamento de autistas em posições de liderança.

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Julia Bascom

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