MEU NOME É EMMA

Emma Zurcher-Long

Postado originalmente no dia 2 de dezembro de 2015 (I am Emma)
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Foto: Emma’s Hope Book

“Qual o seu nome?”, alguém pergunta. É uma pergunta simples, mas quando tento fazer os sons que formam meu nome, outras palavras tentam passagem e forçam-se para fora. Então, “você não deve cuspir”, ou “A Rosie não está”, são exemplos de declarações aparentemente aleatórias e sem sentido a sair da minha boca. Eu chamo essas afirmações de minhas “palavras da boca”. Elas poderiam ser vistas como traidoras, agressores hostis que querem o centro das atenções, mas não o são. Minhas palavras da boca me são engraçadas, mas mal entendidas pelos outros. Minhas palavras escritas me são difíceis, mas entendidas por muitos. Palavras da boca são os cúmplices astutos de uma mente que fala uma língua completamente diferente. Não há palavras, mas um ambiente belo onde sentimentos, sensações, cores e sons coexistem. Com frequência eu penso que se todos os humanos pudessem experimentar o mundo em alta-definição, technicolor e surround sound, como eu, todos seriam mais felizes. Eu acabei por entender que minha mente não é como a da maioria das pessoas.

Eu sou Autista.

Muitas pessoas creem que o autismo descreve uma mente simples e que alguem como eu não tem entendimento ou consciência do que está ao redor. Minha audição é excelente. Sons como uma buzina tocada por um motorista impaciente, que pensa que o barulho irá miraculosamente liberar a passagem a sua frente, são tão intensos que eu posso me perder na entonação daquele som. Sinto-me compelida a imitar cada som que escuto. A buzinas de carros, eu respondo alegremente. A mesma coisa com luzes. A dureza associada ao pesado ar inflado é tão intensa que eu fico dominada. Eu me pergunto se não sou consciente demais do meu entorno.

Algumas pessoas já insinuaram que eu sou incapaz de sentir empatia e supoem que eu não tenha desejo por interação humana e amizades. Eu sinto as intenções e sentimentos das pessoas com tanta intesidade que fica difícil me concentrar. Eu sou sensível demais à tristeza dos outros; é como estar afogando ou sufocando sob o peso da terra úmida a cobrir todo o seu corpo, a encher seus olhos, boca e ouvidos.  Fragmentos pontiagudos de dores passadas e presentes me fazem desviar ou fazer caras ou gargalhar para suavisar o peso. Não há falta de empatia, mas, sim, uma abundância ingerenciável, que desafia minhas melhores intenções. É durante esses momentos que me debato, porque a sociedade espera menos de mim e não mais. Eu ouço as palavras das pessoas que estão chorando ou gritando. Elas dizem coisas como, “estou bem”, em meio a lágrimas, ou “não estou com raiva”, enquanto cerram os punhos, mas suas palavras estão em conflito direto com suas ações.

Outros acreditam que eu não tenha sequer sentimentos. Como se defender de acusações como essas? Tentar convencer do contrário aqueles que pensam que eu seja uma estrutura vazia é impossível. Somado a isso, há a minha inabilidade em utilizar a linguagem falada da forma esperada. “Não, não coloque massinha na boca!” em resposta para “o que houve com a menina que está chorando?” não ajuda a mudar a cabeça daqueles que me julgam incompetente e sem sentimentos.

Se digo para minha boca para comportar-se e demando que certas palavras sejam ditas, a tensão late e rosna, pressionando minha mente de tal forma que ela se deita sobre si, iniciando velhos rituais. “Você não pode jogar sua lancheira no Kevin!” ou “a Maddie não está mais aqui” me ajudam a controlar as ondas de ansiedade que fecham-se sobre mim. Escutar minha própria voz me ajuda a evitar que o vazio penetrante, o nada, me traguem. Apertar meu antebraço bem forte é outro jeito de controlar o maremoto de estresse. A marca de uma dentição completa, cravada em minha pele, pode interessar aqueles no campo da odontologia, mas para a maioria das pessoas que a testemunham, horror é o que melhor descreve sua reação.

Alguns sentem-se desconcertados pela automutilação, até mesmo aterrorizados, e acham que é algo que deva ser impedido a qualquer custo, mesmo que isto signifique intervenções inflingidas por outros muito mais dolorosas do que qualquer coisa que eu pudesse fazer a mim mesma. Eu a vejo como uma forma de cuidado e de reconhecimento da esmagadora ofensiva das emoções indisciplinadas. Esta ideia não é bem recebida pelos “especialistas em autismo” que usam palavras como “comportamentos”, “desafiante” e “oposicionista” para defender o uso de salas de isolamento, imobilização e até mesmo eletrochoque para pessoas como eu. Parece que abuso feito para prevenir automutilação é permitido, até mesmo aplaudido, embora eu não consiga enxergar a lógica. Quando minha mente está presa em um aspiral descendente, eu preciso de tranquilidade. Minha frustração, frequentemente expressa por gritos e repetição de rituais, devora a paciência dos que a testemunham. Meus gritos ameaçam a bondade deles, eu sei, mas, uma vez tenha começado, eu não consigo parar, e terror lancinante é tudo o que resta. Apenas os poucos dedicados falam de amor durante meus episódios de estresse e dor arrebatadores. O amor deles rejuvenesce e restaura minha fé nesse mundo complicado.

Eu sou exuberante. Prefiro andar a galope a caminhar. Sons altos, batidas intensas, saltos, braços agitados, baixos aluscinantes, total escuridão ou iluminações brilhantes, com um microfone à mão, são as coisas que me fazem feliz. Eu quero que as pessoas me ouçam. Sou tão versada em fazer caretas como em minhas músicas favoritas e minha própria neurologia. Minha mente se ilumina como um raio, rápida, faminta, lógica. Eu sou aquela que busca, determinada, amante do riso, em um corpo que tenta me acompanhar. Não consegue, mas eu continuo tentando.

Demonstrar benevolência àqueles que são diferentes e aceitar suas imperfeições de braços abertos, como prova de humanidade, é o remédio para o medo. Amor é uma palavra pequena, mas, por ela, podemos ser consumidos pela sensação e o mundo torna-se um lugar de possibilidades infinitas. Eu quero que minhas palavras, conquistadas com dificuldade, dêem esperança e inpiração às pessoas a mudar a forma como pensam sobre o autismo e sobre as pessoas como eu.

“Qual é o seu nome?”, perguntam.

Meu nome é Emma.

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Foto: Pete Thompson Photo


 

Emma Zurcher-Long é uma adolescente autista que mora em Nova York e escreve em seu blog Emma’s Hope Book.

Este ano ela está codirigindo e estrelando em um documentário chamado “Unspoken“.

Para ler mais textos da Emma em português, clique aqui.


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Uma resposta para MEU NOME É EMMA

  1. Esse é o registro mais esclarecedor até agora publicado neste blog.

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