Desobediência

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Este texto me faz pensar muito nele. Meu filho Asher, aos três anos, em sua janela.

Eu só ia postar novamente na próxima semana, mas acabei traduzindo este texto curto da Amy Sequenzia.

Aqueles que não conhecem um autista de perto, talvez não vejam interesse nestas palavras, mas para os que conhecem, convivem e amam um autista, o texto da Amy pode ser revelador. Já os autistas que poderão lê-las, podem identificar-se com a descrição de seu próprio corpo e como ele opera, feita pela autora.

A postagem original do texto está aqui

Um corpo desobediente

Amy Sequenzia 

Teimoso

Pouco confiável.

Difícil de comandar.

Esse é meu corpo.

Às vezes sinto
que não tenho controle algum sobre ele.

Algumas vezes, meu corpo age como uma criança rebelde, que sabe o que deve fazer, mas se recusa a seguir ordens.

Em raras ocasiões, meu corpo e minha mente ficam em perfeita sincronia.

Mas na maioria das vezes meu corpo não faz o que meu cérebro quer.

Tudo o que requer ação é um desafio.

Quando meus pensamentos estão organizados, se tenho palavras dançando em minha mente  e posso ver as sentenças e parágrafos prontos para a tela, eu tenho de escrevê-las imediatamente.

Meu cérebro diz: pegue o iPod.

Meu corpo ignora o pedido.

Meu cérebro então diz: tome alguém pela mão.

Meu corpo pausa e avalia. O que vem depois depende do que vão adivinhar.

Quando estou finalmente pronta para escrever, meu cérebro precisa usar toda a energia disponível para manter meus dedos em movimento. Um toque em meu cotovelo pelo meu facilitador ajuda meu corpo a acalmar-se, assim minha coordenação melhora.

Algumas vezes, meu corpo pede mais do que um toque no cotovelo. Acontece quando estou muito cansada por causa de convulsões ou insônia, mas minha necessidade de escrever é poderosa demais para ser ignorada. Depois que termino de escrever, meu cérebro precisa de descanso. Às vezes meu corpo concorda e eu posso descansar. Às vezes meu corpo rebela-se e o descanso esquiva-se.

Meu corpo também reage em uma velocidade diferente. Por causa dessa resposta mais lenta, já fui considerada pouco cooperativa. Ou como alguém que se comportasse mal, ou não tivesse entendimento de nada. Como se eu não estivesse “em casa”.

Se estou sentada em uma cadeira ou sofá, é bem provável que eu precise de ajuda para levantar-me. É uma coisa de coordenação. Mas antes disso, meu cérebro tem de ser muito paciente. A mensagem “levante-se” viaja pelo meu corpo, alertando meus músculos e ossos. E então ela viaja de volta ao meu cérebro onde eu tenho de “ver” o que fazer, e depois, de volta para meus músculos para, com sorte, gerar ação. Pode levar mais do que alguns segundos para que meu corpo finalmente inicie algum movimento. Até que isso ocorresse, os Muito Importantes Terapeutas e Professores do meu passado já haviam marcado um “X” em “não entende” ou “não coopera”.

E ainda, algumas vezes, meu corpo faz coisas sem uma ordem de meu cérebro. Isso é porque meu corpo comporta-se como criança.

Posso estar sentada à mesa e, de repente, antes que meu cérebro se dê conta, levantar-me derrubando a cadeira e o que mais estiver à minha frente.

Posso estar andando e repentinamente encontrar-me no chão; não porque eu tenha caído, mas porque o meu corpo decidiu que o chão era um bom lugar para estar e meu cérebro não pôde argumentar com esse corpo brincalhão.

Posso também disparar e tentar correr, ou minhas mãos podem ir, sem acanhamento e sem nenhum motivo, para o prato de alguém. É embaraçoso, mas não é por falta de discernimento.

Eu tenho, às vezes, um corpo brincalhão.

A meu corpo falta consciência corporal.

Isto quer dizer que eu nunca sei onde dói. Às vezes eu tenho dores terríveis, mas não faço ideia de onde doa.

Como meu rosto nem sempre reflete como me sinto, minha dor passa despercebida pelos outros até que se torne intensa demais para ser ignorada, mesmo por meu corpo.

Ou então não acreditam que eu esteja mesmo com alguma dor, como quando eu tive queimaduras de segundo grau, mas meu corpo não queria reclamar. Algumas pessoas olharam para mim e disseram: ela não sente dor!

Quando a falta de consciência está relacionada ao uso do banheiro, pode ser embaraçoso. E quando seu corpo não sente ou apenas começa a sentir necessidade de usar o banheiro quando já é tarde, incidentes, ou acidentes, acontecem.

Meu corpo e meu cérebro estão sempre em conflito. Meu corpo é desobediente. Eu também tenho outras deficiências que fazem com que um reflexo eficaz seja difícil. Sem contar o medicamento para as convulsões que faz tudo ficar mais lento.

Meu corpo me surpreende algumas vezes.

De vez em quando, meu corpo faz exatamente o que meu cérebro lhe diz para fazer. Isso me surpreende e normalmente não dura muito tempo. Mas a vida fica divertida e meu cérebro ri.

Ter um corpo desobediente faz com que as pessoas pensem que meu cérebro não é funcional. Mas não é verdade. Na verdade, apesar das convulsões, meu cérebro raramente descansa.

Meu corpo desobediente abriga meu muito ativo, incansável e rápido cérebro.

Se meu corpo pudesse mover-se com a mesma velocidade que meu cérebro, eu estaria quebrando recordes. E tenho certeza de que não sou a única.

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