A LANTERNA DE DESCARTES (O CURIOSO CASO SOBRE AUTISMO E PROPRIOCEPÇÃO)

26 de agosto de 2014 m kelter
Publicado originalmente em inglês no Invisible Strings

Tradução: Ana Gauz

I.

Fui à psicóloga uma vez e disse-lhe: “Não tenho linguagem corporal”. Passamos cerca de quatro anos discutindo o assunto.

Um dia, ela perguntou se podíamos falar sobre o meu modo de andar. Disse: “Quando você anda, seus braços não se mexem”. E não se mexem mesmo, ficam só pendurados como se fossem cortinas em forma de braços, sem propósito algum. Às vezes, quando ando, chuto-os mentalmente para que pareçam vivos. Eles nem ligam. É como se alguém tivesse removido as pilhas deles.

Geralmente – disse à psicóloga – meus membros parecem estranhos, desconectados. “A verdade é que não sinto que estou ali de verdade, no mesmo mundo com o resto das pessoas. Parece mais que minha imagem foi montada, de forma mal feita, sobre uma fotografia em que as outras pessoas aparecem.”

A psicóloga refletiu sobre o que falei. Ela falou que imaginava se haveria alguma relação entre meu modo de andar e desconforto do membro com a falta de linguagem corporal. Ela perguntou se eu sabia algo sobre propriocepção – a capacidade do cérebro em rastrear espacialmente onde o corpo e os membros estão em um determinado momento.

Dei de ombros. Eu nada sabia sobre o assunto. Ela falou sobre propriocepção, sistema vestibular, sobre o trabalho constante do cérebro, processando e integrando os dados desses sistemas.

Acrescentou que não havia ainda muitas pesquisas sobre a interação entre autismo e propriocepção. Eu disse a ela que estava tudo bem. Meus membros pareciam apenas perdidos… como se fossem a sombra de outra pessoa… provavelmente era tudo o que eu precisava saber.

Ela acenou com a cabeça, concordando. Depois ficamos tomando café e pensando sobre coisas em geral.

II.

A sensação de desconexão física pode tornar difícil a sensação persistente do eu.

O que é um problema: se você tem dificuldade para definir um parâmetro para o eu e não sabe o por quê…não lhe faltam teorias. Nossos cérebros são máquinas de interpretação…na falta de compreensão, o vazio resultante será preenchido com metáforas, mitos, teorias, etc.

Tentamos nos decifrar. Algumas vezes de formas criativas. Algumas vezes de formas destrutivas, que nos deixam perdidos.

III.

Quando estava na quinta série, a professora me perguntou o que eu queria ser quando crescesse e respondi: “Um projetor de filmes.”

Ela pensou um pouco e, em seguida, perguntou/corrigiu: “Você quis dizer projecionista?”

“Não”, eu falei. “Como a máquina. Um projetor de filmes.”

Ela deu um sorriso protocolar e disse: “Então tá…” e se afastou.

Não cheguei a lhe contar que já estava me transformando em uma máquina. O lance do projetor…era mais uma previsão do que um desejo.

Eu vinha tentando entender como minha mente funcionava. Olhava para as outras crianças; elas não se pareciam em nada comigo. Dali não saía pista alguma. (Elas gostavam de desenhos animados famosos e dos rituais confusos das brincadeiras em grupo. Eu gostava de ficar olhando para maçanetas e de ler no escuro até meus olhos doerem. Parecia bem óbvio: os estranhos eram os outros.)

A única referência que fazia algum sentido era o projetor de filmes. Não me sentia como nenhuma outra coisa ou pessoa…eu me sentia como um tecido sem estampa. E, em algum lugar, alguma lanterna brincava com as luzes, iluminava o tecido; as luzes eram eus que apareciam e se apagavam. Eus ondulando, sumindo.

Para mim, o mundo parecia real. Podia vê-lo, tocá-lo. Porém, o meu eu não tinha substância; meu corpo era estranho. Era tudo um vazio e luzes e texturas de chama de vela. À medida que formulava teorias sobre a natureza do meu eu, mais e mais eu escutava um som, que preenchia minha mente e que talvez fosse uma resposta.

Um projetor, girando, estalando.

IV.

Quando tinha 15 anos, transformei-me em algo completamente diferente.

O problema é que eu não sabia que era desprovido de linguagem corporal. Ninguém nunca havia me dito. As pessoas que faziam parte da minha vida pensavam que eu era tímido, tranquilo. E isso era o sul rural dos EUA nos anos oitenta…as pessoas simplesmente não falavam/pensavam em marcos de socialização e em comunicação não verbal.

Mas certo dia, vi por mim mesmo. Não sei por que este momento aconteceu… simplesmente aconteceu. Foi uma transformação inesperada; pense em Paulo, Damasco, escamas de peixe, etc.

Primeiro ano do ensino médio. Hora do almoço. Entrei no refeitório. Alguns dias, eu não comia… não estava a fim de ficar me espremendo numa mesa, passando por sofrimento social. Era um dia assim. Encostei numa parede e tentei desligar minha mente.

De canto de olho, vi o refeitório cheio de alunos sentados às suas mesas. Percebi quanto movimento havia ali. Pessoas gesticulando, acenando com a cabeça, apontando…era como observar os efeitos do vento num campo de grama alta.

Olhei, então, mais diretamente para as pessoas…tentei contar quantos alunos estavam sentados mas continuavam se movimentando. Resposta: todos. Todas as pessoas ali usavam linguagem corporal. E por alguma razão, foi então que entendi o que significava “linguagem corporal”…não era simplesmente uma expressão; era literalmente uma forma de comunicação. Toda aquela movimentação significava algo. Óbvio para os outros. Uma revelação para mim.

Foi chocante perceber…todos falando, se movimentando…simultaneamente, coletivamente. Era tudo tão interligado que parecia mais como se o próprio refeitório estivesse falando, tudo nele subjugado a uma língua secreta. As vogais das pessoas, suas sílabas de movimentos.

Ferrolhos do cadeado da minha mente giraram, abrindo novos caminhos.

Ver, de verdade, a linguagem corporal pela primeira vez: um momento profundamente doloroso. A constatação tanto de sua existência quanto de que passei tanto tempo sem me dar conta disso…foi duro. Descoberta e perda, ao mesmo tempo.

Comecei então um projeto. Esforcei-me tentando memorizar a linguagem corporal dos outros. Observei seus movimentos e, às escondidas, praticava; sempre sozinho, às vezes na frente do espelho. Apenas quando sentia que um gesto estava pronto, eu o inseria em uma conversa real.

Pesquisa, prática, memorização. Eu observava e depois manipulava meu corpo durante as interações.

O projetor de filmes saía.

A marionete entrava.

Era uma nova forma de me entender; uma vida regida por fios invisíveis.

V.

Talvez isso esteja interligado? Não sei.

Não consigo me lembrar de como pareço. Meu corpo parece próximo mas não grudado em mim, portanto é difícil definir precisamente qualquer sensação coerente a respeito dele.

Quando criança, ficava confuso quando me esquecia da minha aparência física. Os espelhos me davam sustos enormes, me pegavam desprevenido. “Aaaaahhh! Ah…sou eu? Sou eu. Certo?”

Às vezes, olhava para mim mesmo, tentava memorizar formatos de nariz e olhos, tentava imprimir isso tudo na memória. Nunca consegui. No momento em que me afastava do espelho, voltava ao meu eu de tecido sem estampa.

Hoje, como adulto, já não é mais tão confuso. Estou acostumado. Vejo meu reflexo e penso, “Ah. Aquele cara.”

VI.

um projetor, uma marionete…ela diz “propriocepção”

Eu digo, “vazio, girando, texturas de chama de vela”

a mente, o corpo…

estranhos afins, perdidos em um jogo de luzes.


m kelter

O autor

M. Kelter, “escritor, felino caseiro, cosmonauta social”. Ele foi diagnosticado como autista por volta dos 30 anos de idade, quando procurou ajuda para tratar a depressão. Com maior entendimento de sua personalidade e do que causava seu senso de inadequação, começou a escrever sobre a experiência no blog The Invisible Strings.

 

 

Ana_CBSS (1)

A tradutora

Ana Gauz nasceu no Rio de Janeiro e mudou-se para Nova Jersey, Estados Unidos em 2009. É formada em Direito pela UFRJ e hoje é tradutora Inglês-Português, tendo se especializado em tradução jurídica.

Ana conheceu Alexia por intermédio de amigas tradutoras e, ao tomar conhecimento do website Autismo em Tradução, encantou-se pela iniciativa.

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